Takeshi: O Menino Tímido Que Virou Voz do Freestep
Das ruas de Mogi das Cruzes ao guardião do freestep brasileiro: a história de quem transformou insegurança em movimento e solidão em comunidade.
Algumas histórias começam com um passo. A de Takeshi começou no silêncio, quando ele ainda não encontrava um jeito de se expressar.
Aos 29 anos, o dançarino que ganhou público nas redes sociais e conduz projetos ligados ao freestep no Brasil carrega nos pés mais que técnica, carrega mudanças pessoais, persistência e a decisão de criar laços onde antes havia isolamento.
No apartamento em São Paulo, onde mora com o filho, a namorada, que também dança e cria conteúdo, e as gatas Aurora e Maya, ele conversa de forma direta, sem esconder falhas, atento às marcas que a própria trajetória deixou.
"Eu era muito tímido, inseguro e tinha muita dificuldade em me comunicar", revela.
"A dança foi minha voz quando vi que as pessoas me admiravam, me fez sentir que finalmente eu havia 'algo'."
Esse "algo" se tornaria, com o tempo, muito mais do que ele poderia imaginar naquela garagem em Mogi das Cruzes onde ensaiava sozinho, sonhando com um futuro que parecia improvável.
Antes de virar nome conhecido no freestep, Takeshi conheceu trabalhos comuns. Lavou carros em lava rápido e atuou como operador de monitoramento.
Aos oito e nove anos, já dava seus jeitos: fazia geladinho e vendia para amigos e familiares, além de gostar muito de desenhar. Sem internet, a rua ocupava seus dias.
"Saía pra brincar de manhã e minha mãe tinha que me buscar na casa dos meus amigos de noite pra ir embora", lembra.
Ao falar da própria trajetória, ele não suaviza.
"Minha trajetória foi tudo, menos linear. Teve momentos de auge e logo uma queda.
Um dia você é considerado um dos maiores do Brasil, no outro você tá pensando em largar tudo pra ir trabalhar numa fábrica no Japão."
Masterclass FreeStep em Barcelona - Espanha (evento: OFF-TSL 2025)
A oscilação entre o reconhecimento e a invisibilidade marcou profundamente seus anos de formação. A pressão em casa era constante.
"Precisava decidir entre ajudar em casa ou ser considerado um peso até 'chegar lá'. Sem direção a gente não sabe pra onde ir", confessa o dançarino.
A dúvida que tirava seu sono voltava sempre. A pressão era constante:
"Será que realmente dá pra viver de dança? Ou trabalhar 6x1 e ainda dançar?"
2016: o ano em que o medo perdeu
Foi entre 2016 e 2017 que Takeshi tomou a decisão que mudaria tudo. Não foi um momento de iluminação súbita, mas uma escolha consciente de arriscar tudo.
"Tomei a decisão de que ia transformar a dança na minha profissão, então comecei a me movimentar: estudei outros estilos, observei como ensinar, pedi ajuda a amigos pra trabalhar junto, sem medo, me joguei em tudo que conseguia!"
A maioria dos eventos eram gratuitos ou com cachês simbólicos, mas serviam de aprendizado.
"Eu vi que pra ser uma profissão eu precisava me tornar um profissional, entender o mercado e o que eu estava fazendo além da dança."
A transformação não veio sem custo.
"Muitas vezes o prazer vira obrigação e isso não quer dizer que você não gosta mais, só que tá cansado e aí, vem o descanso com culpa que me pega muito…"
Hoje, quando olha para trás, o orgulho transparece em cada palavra.
"O que mais me dá orgulho é olhar pra esse passado e poder pensar que esse adolescente que decidiu ir contra o sistema, viver de uma arte que estava em rumo ao esquecimento, recursos escassos, quase desistindo da dança…
É fi, cê tá vivendo todos os sonhos que você brisava na garagem da sua casa!"
3º lugar no mundial de Shuffle Dance categoria Trio na Espanha (evento TSL - Mundial Shuffle Dance)
O cansaço mental que ninguém vê
Por trás dos vídeos que viralizam, das coreografias impecáveis e da constância admirada por milhares de seguidores, existe uma verdade que poucos enxergam… E Takeshi faz questão de não romantizá-la.
"O que quase ninguém vê é o cansaço mental. A dúvida constante se estou no caminho certo, os dias em que o corpo pede descanso mas a mente cobra resultado, é tenebroso!"
Ele fala dos bastidores com franqueza. Muito estudo, repetição até a exaustão, tentativas que falham, vídeos que quase ninguém vê, ideias que ficam pelo caminho antes de sair do papel.
"A constância não vem só de disciplina, vem de insistir, mesmo errando muito, analisando, sem medo do novo e abraçando a coragem."
Ser visto como referência por tanta gente também traz peso.
"Eu fugia disso, de me ver como referência, até hoje me vejo como mais um, mais um que se dedicou muito, errou muito e soube mostrar seus acertos", admite.
Aos poucos, ele tem aprendido a aceitar esse lugar com naturalidade.
"Hoje eu entendo um pouco melhor que sou referência, que tem pessoas que se inspiram em mim e ainda tento fugir desse pensamento", ri o artista.
“Mas eu sei que não preciso ser perfeito, só preciso ser honesto comigo mesmo. Contanto que eu sinta que dei meu melhor, por mim, tá valendo."
Freestep: a dança que ninguém quer ver desaparecer
O freestep foi seu primeiro amor na dança e continua sendo o estilo que mais o representa. Dinâmico, eletrônico, intenso, visceral.
Passos Livres
"Foi minha primeira dança, comecei a estudar outras danças por necessidade de crescimento, trabalho e claro, aprendizado."
Nessa escolha, existe algo que vai além da técnica. Takeshi fala de responsabilidade com a própria cultura. Ele se vê como alguém que protege uma dança que muitas vezes fica à margem.
"Acho que nem pelos próprios dançarinos a dança brasileira é valorizada", diz.
"Brega funk, passinho, freestep, tem muita coisa criada aqui. Muitas vezes só ganha atenção quando vira tendência ou produto."
Sobre as condições para quem tenta viver de dança no Brasil, ele é direto.
"Falta investimento, políticas culturais e reconhecimento profissional."
Ao mesmo tempo, ele observa a força de quem segue criando de forma independente, mesmo com pouco apoio.
Mogi das Cruzes: onde tudo faz sentido
Nascido e criado no extremo leste paulista, Takeshi atribui a Mogi das Cruzes parte do que construiu na dança.
"Crescer aqui me mostrou que a dança pode salvar vidas. Que vai além da técnica, da performance e da estética. Aqui aprendi que dá pra viver a dança longe das capitais, criando caminhos onde antes não existiam."
A cidade reúne contrastes. Interior e capital. Urbano e rural. Brasil e Japão.
"Essa mistura me ensinou a lidar com referências diferentes e a construir uma identidade que muda o tempo todo e é difícil de rotular."
Desse contexto saiu um artista que não aceita rótulos fixos.
Espetáculo: Uma breve história do FreeStep
"Quero deixar caminhos abertos"
Hoje, Takeshi não dança só para si. Ele integra o @timefreestepbrazil e recebeu de Jeff TJ o convite para representar o Brasil na cena das danças eletrônicas. Esse lugar traz peso. Ele sabe que carrega uma história que não começou nele.
O projeto Passos Livres ocupa outro espaço na vida dele. Ali, a ideia é abrir portas, dividir o que aprendeu e encurtar o caminho de quem está começando agora.
"É o meu legado: uma forma de devolver à dança tudo que ela me deu e abrir espaço para que outras pessoas vivam seus próprios sonhos dentro dessa cultura."
Quando pensa no futuro, não fala de status. Fala de continuidade. Quer ver mais gente vivendo da dança sem precisar passar por tantos bloqueios sozinho.
Ele se guia por três pilares que aprendeu na dor e alegria de sua jornada: Expressão, como forma de sentir, falar e liberar. Movimento, como não parar, superar e crescer. Comunidade, como compartilhar, ajudar e conectar.
Sobre o que deseja para a dança no Brasil, ele resume sem rodeios.
"Mais união e menos ego. As danças urbanas do Brasil mais presentes nos eventos, mais processos compartilhados, menos competição vazia, mais comunidade."
Equilibrar visibilidade e verdade
Com a visibilidade nas redes sociais, o tipo de pressão mudou.
"Hoje o maior desafio é equilibrar visibilidade e verdade. Aprender a ouvir o mercado sem silenciar quem eu sou, para que a dança continue sendo expressão e não apenas performance."
Com o tempo, a dança também virou escola de vida.
"Eu entendi que as coisas levam tempo, que é preciso ter humildade, evitar comparações, que cada um tem sua individualidade e seu próprio caminho."
O apoio da comunidade nunca veio de uma forma só.
"Tinha apoio direto, tinha silêncio, tinha crítica também. Aprendi a não depender da validação externa com o tempo, olhar pra mim e saber o quanto eu sou capaz. Quando o apoio veio, me fortaleceu. Quando faltou, me obrigou a criar minha própria base emocional."
Se pudesse voltar e rever uma fase, ele pensa no período em que morou perto da capital com os sócios do projeto Apenas Dance.
"Sinto que faltou mais dedicação ao projeto e visão, além de autoconfiança também. Em contato com grandes dançarinos eu acabava caindo nas comparações e ao mesmo tempo que me motivava, me mostrava o quanto eu ainda precisava aprender. Devia ter confiado mais e ter tido mais coragem."
Ainda assim, ele não rejeita esse passado.
"Entendo também que foi isso que me fez chegar até aqui."
FREESTEP, SHUFFLE DANCE & CUTTING SHAPES juntos
Pro artista, é impossível viver sem a arte
Desistir passou pela cabeça dele mais de uma vez.
"Já até pensei em desistir, seguir outro caminho menos doloroso", conta, rindo.
"Mas é incrível quando isso acontece. Sempre aparece alguém, algum trabalho, alguma coisa que me puxa de volta e me lembra do por que eu faço isso.
Pro artista, você sabe, é impossível viver sem a arte."
Nos intervalos entre gravações, ensaios e projetos, ele volta a hábitos simples. Assiste animes, séries e filmes. Joga RPG como Pokémon e Zelda. Escuta música. Esses momentos lembram o garoto que corria pelas ruas de Mogi, desenhava em cadernos velhos e imaginava um futuro ainda sem forma.
O conselho final
Para encerrar, Takeshi deixa um recado direto, sem firulas, para quem sonha em viver da dança no Brasil. É uma mensagem que carrega tanto alerta quanto esperança:
"Não romantize, mas também não desista. Vai doer, vai cansar, mas também vai curar. Respeite seu tempo, cuide da sua mente e lembre: você não precisa se encaixar, você pode construir seu próprio caminho."
São palavras de quem viveu fases de reconhecimento e de esquecimento, momentos de aplauso e períodos de silêncio, dias de confiança e outros de dúvida que paralisa. De alguém que quase desistiu e, por continuar, viu que dava para viver da dança e usá-la para gerar impacto na vida de outras pessoas.
Hoje, Takeshi não é mais só o menino tímido que encontrou na dança um jeito de se expressar. Ele mostra, com a própria trajetória, que é possível viver de arte no Brasil, mesmo em cenários difíceis.
É a voz que fala pelos que ainda não conseguem. É o movimento que não para, que não aceita o esquecimento, que insiste em abrir caminho.
E nessa insistência diária, nessa teimosia generosa de quem se recusa a atravessar sozinho, ele constrói algo muito maior que uma carreira: constrói uma ponte.
Uma ponte para que outros possam atravessar com menos dor, mais direção e a certeza de que, sim, vale a pena.
Porque a dança salva, e Takeshi é testemunha viva disso.
Espetáculo: Uma breve história do FreeStep
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