Igor Marinho: A dança como lugar de existir

A história de Igor Marinho começa em Cabo Frio, no segundo distrito de Tamoios, mas seu território verdadeiro sempre foi outro: o da imaginação.

Aos 31 anos, produtor cultural formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), técnico em eventos pelo Instituto Federal Fluminense (IFF) e atualmente considerando iniciar um mestrado, ele vive entre dois mundos: o trabalho na regulação da Secretaria de Saúde e o chamado insistente da dança.

“Trabalhei com dança por mais de 10 anos”, conta o artista. “A dança sempre esteve presente principalmente por questões de autoestima. Sinto que, de alguma forma, ela faz eu me sentir o suficiente.”

“Já tentei parar inúmeras vezes,

mas a dança sempre me puxa de volta. Sinto que preciso cumprir uma missão”, afirma o dançarino.

O primeiro encontro com essa missão foi inesperado.
No ensino médio, durante uma gincana cultural, a turma precisava realizar uma apresentação. Ninguém queria assumir a parte artística, até que a professora Rose, de matemática, disse:

“A cultura é a única coisa que sobra quando a humanidade vai embora.”

Essas palavras tocaram Igor.
Ele decidiu subir ao palco, sem nunca ter dançado antes, interpretando Ney Matogrosso.

Ao fim da apresentação, vieram os aplausos e com eles, uma revelação:

“Pela primeira vez em 16 anos, eu senti que era admirado.”

@iammarinho

O Nascimento do Movimento: Solitude e Imaginação

Criado em um lugar sem incentivos culturais, com poucos eventos e poucas oportunidades, Igor aprendeu a treinar sozinho.

A pandemia, para ele, não foi ruptura: foi continuidade. A solitude, que marcou sua infância, virou terreno fértil para a imaginação. Foi assim que encontrou no animation sua linguagem. “Sempre fui uma criança solitária. O animation é a única dança que me permite transformar o real no irreal.”

A dança, porém, veio com ambivalências. Ela o libertou, mas também o prendeu.

“Queria ter uma vida normativa, um emprego estável... mas a dança não me deixa”, confessa, rindo.

Liberdade e o Peso da Vocação

Entre suas maiores lutas está aprender a criar mesmo quando está feliz. “Eu me sinto mais criativo quando estou melancólico. Preciso aprender a expressar arte no ‘gozo’, na alegria.”

Para ele, essa transição também faz parte do amadurecimento artístico e humano.

Com os anos, Igor desenvolveu uma visão crítica sobre o mercado da dança no Brasil.
Ele acredita que a desvalorização da arte não é apenas cultural, mas estrutural.

“A forma e a estrutura da indústria cultural favorecem a desvalorização da arte de propósito.

Isso mantém uma mão de obra barata”, afirma Igor.

Ele acredita que a regulamentação limitada e as brechas jurídicas colocam profissionais da dança à mercê do mercado.

“Investimos fortunas em cursos, treinos, estruturas… e o retorno financeiro é irrisório.”

Ainda assim, Igor vê potência onde muitos veem ausência. “Lugares onde não tem nada são os melhores para começar algo”, confessa o artista.

Ele reconhece o sindicato do Rio de Janeiro como uma estrutura importante, mas insuficiente. Para Igor, a transformação só acontecerá quando a classe trabalhadora da dança se organizar coletivamente para discutir pautas estruturais.

Redes Sociais: o futuro

A globalização da dança e a força das redes sociais abriram caminhos, mas também criaram novos dilemas. Ele vê o TikTok como ferramenta e ameaça.

“As redes democratizaram saberes, mas também esvaziam cultura.”

Ele sabe bem do impacto disso porque, quando começou, sentia que os estudos eram muito centralizados.
Nem todos podiam ir a São Paulo, ao Sul ou a Brasília para estudar com professores específicos. Por isso passou a criar conteúdo: para compartilhar saberes com cuidado, pesquisa e compromisso.

“Compartilhar conhecimento ajuda na formação de novos dançarinos de forma direta ou indireta.”

Mas esse cenário também cobra seu preço.
A indústria cultural transforma arte em produto e exige que o artista seja vendedor, produtor, influencer, editor, gestor e comunicador ao mesmo tempo.

“Nem todos os artistas desenvolvem habilidades adjacentes. O mercado é ingrato.”

E impõe perguntas difíceis:

Como resistir ao esvaziamento cultural?

Como criar métodos de preservação?

O que podemos fazer, materialmente, para lidar com a precarização?

O desejo maior é outro: que ser dançarino no Brasil seja tão legítimo quanto ser engenheiro ou farmacêutico. Mas ele admite carregar um medo silencioso de que tudo continue como está.

Entre tantas camadas, uma ideia acompanha Igor com firmeza:

“Gostaria de fomentar autonomia. É um dos pilares da autenticidade.”

E seu conselho final, talvez sua síntese mais madura, é simples e profundo:

“Você não precisa saber de tudo.
Mas pelo menos saber minimamente o que você dança, de onde veio, qual é a intenção.”

Criar memórias, estudar, se divertir.
Amar algo, seja o que for. Esse é, para ele, o verdadeiro ato de existir.

Para Igor Marinho, dançar não é ocupar um palco. É ocupar a si mesmo. E permitir que a arte siga sendo, apesar de tudo, aquilo que permanece quando o resto vai embora.

Siga Igor nas redes sociais: @iammarinho

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