Cássila Gonzales: Quando a dança precisou caber na vida real
De Porto Velho ao Brasil: a história de quem dançou por quase 30 anos sem nunca desistir e descobriu, nas redes sociais, um palco que ninguém havia imaginado antes.
Algumas pessoas nascem sabendo que precisam dançar. Cass é uma delas.
Nascida e criada em Porto Velho, capital de Rondônia, ela pisou num estúdio de Ballet Clássico aos cinco anos de idade e, de lá pra cá, nunca mais parou completamente. Quase três décadas depois, com passagens pelo Jazz Dance, Dança Contemporânea, Sapateado e Dança do Ventre, ela segue em movimento e com uma certeza que levou tempo para se firmar.
"São quase 30 anos em contato com essa arte que dá sentido à minha existência", diz a bailarina.
Mas a trajetória não foi linear. Houve idas e vindas, situações adversas, fases em que a dança precisou ceder espaço para outras urgências da vida. Formada em Direito em 2013 (com OAB tirada no ano seguinte, mesmo sem nunca ter atuado na área), Cass construiu uma carreira paralela como Social Media, Estrategista de Conteúdo e Assessora Parlamentar de Comunicação.
Foi exatamente esse conjunto de habilidades que, aproximadamente dois anos atrás, a levou a iniciar a produção de conteúdo como bailarina. O resultado surpreendeu até ela. Hoje são mais de 90 mil seguidores no Instagram, 75 mil no TikTok e 120 mil no YouTube.
Cass com suas seguidoras.
Do hobby para o propósito
Por décadas, a dança foi tratada com seriedade, mas ainda assim classificada como hobby. Esse status mudou no momento em que as telas começaram a responder.
"A dança sempre foi um hobby pra mim, porém um hobby que sempre levei muito a sério", conta.
"Hoje ela claramente deixou de ser um hobby e faz parte do meu trabalho como produtora de conteúdo, é a base dele."
A virada de chave aconteceu cerca de um mês depois do início do projeto nas redes sociais, quando os primeiros impactos começaram a aparecer nos comentários, nas mensagens, nas histórias que as pessoas passaram a compartilhar com ela.
"Ali eu percebi que a dança seria usada por mim como um instrumento de transformação na vida de muita gente", lembra. "E enfim deixaria de ser apenas um hobby."
O peso dessa percepção não é pequeno. Aquilo que sempre deu sentido à sua existência passou a dar sentido também à existência de quem a acompanha.
"Aquilo que sempre deu sentido à minha existência, hoje dá sentido também à existência das pessoas que me seguem, se inspiram e se motivam por mim.
A dança hoje é um pilar essencial na minha vida."
O Ballet, a paixão que não se explica
Entre todos os estilos que percorreu, um sempre ocupou um lugar diferente. O Ballet (tanto clássico quanto neoclássico) é sua grande paixão, e ela não hesita em dizer por quê.
"Acredito que por conta das linhas, do controle, de tudo que o permeia", explica.
Mas Cass é também uma defensora fervorosa da versatilidade. Na sua visão, um bailarino que se limita a um único estilo está, na prática, se limitando como artista e como ser humano.
"Sempre friso que um bailarino deve ser versátil e ter conhecimento de vários estilos, isso certamente enriquece muito a nossa técnica como um todo."
Cada estilo, para ela, exige uma entrega diferente, mas todos compartilham algo que não tem como ser deixado do lado de fora do estúdio.
"Entendo que seja comum a todos os estilos entregarmos nossas vivências e o que estamos passando em determinado momento, que são coisas intrínsecas a nós e impossível de serem isoladas do contexto ser humano."
Antes de dançar, ela estuda. Pesquisa o contexto da coreografia, entende o que precisa ser comunicado, decide o que quer transmitir. Só então o corpo entra em ação.
O corpo que não se encaixava
Por trás da técnica impecável e da presença marcante nas redes, há uma história de insegurança que Cass carrega com honestidade rara. Desde criança, ela soube que seu corpo não correspondia ao "padrão russo" tão valorizado no ballet.
"Quando criança, minhas colegas do ballet sempre me apontavam como a aluna fora dos padrões, com quadris largos e coxas grossas", relembra.
A pressão estética não desapareceu com o tempo. Ela evoluiu, se transformou, mas nunca deixou completamente de existir.
"Até hoje eu continuo me cobrando muito, mas priorizo um corpo saudável dentro do meu biotipo físico, com treinos de musculação direcionados para performance e uma alimentação saudável e equilibrada."
O que mudou foi a hierarquia das prioridades.
"A estética hoje é sim algo importante para mim, tanto como bailarina como influenciadora, porém se tornou algo acessório ao que realmente importa no momento: performance e entrega na dança."
Uma reviravolta que levou décadas para se consolidar e que hoje ela comunica sem filtros para quem a acompanha.
Rondônia: dançar onde a estrutura não existe
Falar de Cass sem falar de Rondônia seria contar metade da história. Crescer e se desenvolver artisticamente numa capital distante dos grandes centros moldou sua percepção da dança no Brasil de uma forma que poucas pessoas conseguem articular com tanta clareza.
"Infelizmente Rondônia é um dos locais do Brasil em que a dança é menos valorizada, observo isso desde a minha infância e sempre foi assim."
O problema, na análise dela, é estrutural e duplo: nem o poder público se mobiliza, nem a iniciativa privada contribui.
"É sempre muito dificultoso — por parte da máquina pública principalmente — e custoso para as escolas e artistas promover cultura aqui.
Além do setor público não se interessar e nem incentivar, a iniciativa privada também não valoriza e não contribui."
O que resta é o que sempre restou quando tudo falta: amor.
"O que nos move aqui é realmente o amor à dança e à arte, estamos sempre em busca das melhores soluções pra levar cultura aos palcos."
Sobre o apoio institucional à dança no Brasil como um todo, ela não poupa as palavras.
"É mínimo, insuficiente e, nas localidades mais distantes, inexistente. O único lugar no Brasil que eu sinto que existe estrutura e apoio é na cidade de Joinville, por conta da filial da Escola Bolshoi."
E em Rondônia especificamente?
"É menos que o mínimo. Infelizmente não existem oportunidades de formação, trabalho e visibilidade para quem é da dança."
Sair para crescer e voltar com mais
A decisão de expandir horizontes foi inevitável. O isolamento territorial, como ela define, funcionava como uma barreira invisível mas muito real.
"Eu realmente precisei sair de Rondônia para ter algum tipo de reconhecimento. Dancei aqui a minha vida inteira e sempre senti que o isolamento territorial me impedia de avançar e evoluir mais."
A carreira como influenciadora foi o que abriu essa porta e ela atravessou sem hesitar.
"A carreira como influenciadora me levou a sair daqui e buscar capacitação e novas vivências fora para levar isso ao meu público."
Cass acredita que o contexto regional deixa marcas profundas no jeito de dançar, mesmo quando o bailarino não percebe.
"O homem é produto do meio em que vive. Ainda que inconscientemente, a regionalidade faz parte da forma de dançar do bailarino rondoniense."
Para quem está começando em lugares assim, longe dos centros, ela tem um conselho que mistura estratégia e realismo.
"Se você tem talento e paixão, seja perseverante e invista nas suas redes sociais, produza conteúdo, tenha disciplina e constância, dê um jeito de aparecer — e depois, no final das contas, não tem como fugir: vá para os grandes polos."
As redes sociais como palco
Cass chegou às redes com cautela. Pessoa reservada por natureza, ela construiu uma presença digital com intenção e limites muito bem definidos.
"Sempre fui uma pessoa muito reservada em relação a redes sociais, então usar esse espaço digital é algo que trato com muita cautela. Procuro mostrar apenas aquilo que acontece na minha vida relacionado à dança."
Mas ela sabe que conexão de verdade às vezes exige mostrar o que está além do palco.
"Para criar uma verdadeira conexão com meu público, às vezes é necessário mostrar situações não diretamente relacionadas à dança, porém o foco é sempre esse."
Sobre o que as redes representam para a dança hoje, a visão dela é abrangente.
"As redes sociais são o novo grande palco para a dança. O TikTok aborda de forma super imersiva e real o mundo da dança, especialmente da perspectiva das novas gerações."
E o alcance desse palco não tem precedente na história da arte.
"Essa exposição contribui muito para a profundidade artística e abre espaço para uma ampla apreciação da arte, alcançando públicos antes inimagináveis em um universo sem essa internet tão potente e global.
As redes sociais abrem espaço para todos os tipos e estilos de bailarinos, dando voz à dança vivida de diferentes perspectivas, do profissional ao hobby, tornando a dança global e acessível."
Mas há algo ainda mais pessoal nessa relação. Produzir conteúdo diariamente a mantém em contato constante com sua própria essência.
"As redes sociais também me aproximam da minha essência artística, partindo do princípio de que estou sempre dançando para produzir conteúdo.
Esse contato diário com a dança me leva a explorar e trabalhar cada vez mais minha essência artística."
A dança que cura e o conselho que ela carrega
Antes de encerrar, Cass olha para quem está do outro lado da tela. Para quem ainda hesita em dar o primeiro passo. Para quem acha que não tem o corpo certo, a cidade certa, o momento certo.
A mensagem é direta, sem enfeites.
"Em primeiro lugar, você dança para si mesmo antes de dançar para o mundo. Faça isso por você e eu garanto que seu corpo e sua alma irão agradecer por isso."
E para quem está esperando a hora certa?
"A relação entre você, a dança e confiança é uma construção que só vai acontecer se você tomar o primeiro passo: DANÇAR. Comece hoje e você agradecerá por não ter deixado pra depois."
Quase 30 anos de dança, um estado que não apoia, um corpo que não se encaixava nos padrões, uma carreira construída à força de disciplina e reinvenção… E Cass segue em movimento. Não porque seja fácil. Porque é impossível parar.
Ela sabe disso melhor do que ninguém.
Cass é bailarina, produtora de conteúdo, Social Media e Estrategista de Conteúdo.
Acompanhe sua trajetória nas redes sociais:
Instagram: @cassballerina
TikTok: @cassballerina
Youtube: @cassballerina



